sexta-feira, 14 de novembro de 2008


Texto e fotos: Carol Anchieta

A partir de Leandro Francisco, ou melhor, Tiririca, ou Tiri como é mais conhecido, que parte o maior evento de rap a céu aberto de Porto Alegre, o COHAB é só Rap. Evento este que na edição de 2007 reuniu cerca de 5 mil pessoas na principal Avenida da COHAB na capital. E neste ano só não repetiu a dose em número de público me função do tempo um pouco chuvoso que fazia no domingo dia 8 de novembro, mas mesmo assim a ótima intenção de levar o rap para COHAB foi a mesma.


Mas não pense que Tiri faz tudo sozinho, junto com ele, dividindo as responsas, os corres, os problemas, as alegrias, as satisfações, as noites mal dormidas, as burradas, os erros e acertos, de se fazer um evento tão grande, vem: Custela, Alemão, DN, Gordinho, Marcelão, Bruno, Lonha, Anão, Cirilo, Jamaika, Jessé, Pancho, Buda, Bocão, Nego Dô e DJ pesado.


Esta é a equipe da Sítio, que junta realiza um evento que é a cara do rap, pois nasce em um local que representa umas das principais fontes deste segmento: a COHAB. Em qual COHAB deste país que não tem pelo menos uns 20 grupos de rap? Portanto não existe, lugar melhor para fazer um evento com mais de 10 grupos de rap, grafite, muita cultura de rua, e de graça!
No ano passado o evento contou pela primeira vez com artistas de fora do Rio Grande do Sul, e este ano trouxe de São Paulo o grupo RZO.

Dificuldades políticas, falta de grana, patrocínio... O COHAB é só rap enfrentou os velhos empecilhos para quando se quer trabalhar com cultura de diversas maneiras seja do hip hop ou não. Mas isso tudo foi, e continua sendo vencido e desde a última edição do evento, que desde o ano passado conta com o apoio da prefeitura, tem condições de ser cada vez melhor.
Então para o público entender bem o que significa fazer e como é fazer um evento desses, trouxemos aqui uma entrevista com o Tiri para saber como o Cohab é só Rap nasceu.
Numa tarde inteira na COHAB, no primeiro dia em que toda equipe da Sítio, se reencontrou depois do evento do ano passado, deu para pegar fresquinho qual foi a impressão dos caras que fazem a coisa toda acontecer e repara que quem quer realmente consegue, mas ó: tem que suar...


O começo...
Tiri -
A gente queria inaugura uma lojinha, aí e agente chamou uns parceiros e fizemos no lançamento da loja o primeiro COHAB é só rap em 2004. No começo era eu, o Alemão o Peu e o Pezado, e com o tempo a equipe foi crescendo e desde a primeira essa equipe, foi todo mundo amadurecendo e aprendendo com os erros. O primeiro palco foi no chão e o cenário com o desenho de uns prédios foi feito em papelão costurado a mão. E para conseguir realizar a EPTC fechou a rua e o som foi negociado com o dono do bar que ficava em frente ao local do show, o “tio do bar” pagava o som e lucrava com a venda da cerveja aí deu tudo certo.

Como é o processo de construção do evento? Como nasce uma edição do COHAB é só rap?
Tiri –
Foi uma maneira que a gente criou de trabalhar, a gente acha que é um tempo legal, de 3 a quatro meses antes da data, que é sempre primeira ou segunda semana de novembro a gente se reúne. A gente tem reuniões semanais, mesmo nas horas de lazer por que daí a gente já vai trocando idéia.


E quem faz o quê? Já existem funções específicas ou a cada ano isso muda?
Tiri –
Na real a gente tá aqui para descobrir no que cada um se destaca, a gente tem várias necessidades para suprir. O que Marcelo, por exemplo, se destaca na internet, fez a comunicação, ele informa tudo mundo via internet e só avisa a equipe do que cada um precisa fazer conforme o que ele marca. O Costela é o cara que fica na recepção, no acompanhamento... Cada um ajuda na maneira que pode.

Lá no começo, da primeira para a segunda edição, quais as principais mudanças?
Tiri –
O segundo a gente tava amadurecendo ainda, a gente começou a gravar o DVD já no segundo, e na realidade com pouco recurso e a gente fez da criatividade a nossa principal arma. A gente tinha um trio elétrico, só que o problema era para dos DJ’s, ia balançar muito. Então gente colou dois truk (ferros que fazem a base do skate) para dar mais estrutura no palco. Aí conseguiram os melhorar os flyers e assim foi...

A partir de que momento conseguiram o apoio do prefeitura?
Tiri –
Com as imagens que agente tinha do COHAB2 a gente apresentou na secretaria de cultura, para fazer o terceiro. Foi o primeiro contato que a gente teve. Neste primeiro contato a gente foi bem discriminado, por que nestas imagens que a gente fez aparece maconha, mas é o que é a realidade! A gente foi filmar em vários lugares. A gente tava filmando num lado da rua e quando a câmera virava pro outro, o cara tava vendendo um saco de fumo e a gente foi obrigado a filmar. A gente não tem culpa que aquilo ali está ali, se agente é exposto a isso, a gente tem o papel de mostrar para as pessoas o que tá acontecendo. Por isso a gente procurou uma independência maior para fazer o DVD, por que aí a gente vai colocar da maneira que gente acha.
E a partir desse primeiro contato, que diferença fez?
Tiri –
Então a partir desse primeiro contato a secretaria da juventude liberou o palco. Na verdade existem diferenças partidárias aqui dentro da comunidade, e acham que a gente tem uma direção partidária, mas a gente é pelo hip hop. A gente faz política, mas não partidária. Então os caras tentaram omitir algumas coisas, até o nosso trabalho...

Como? Tiri – Ah... A gente conseguiu o palco da secretaria da juventude e um rapaz da prefeitura que é daqui e falou que não tinha que dar tipo: “santo de casa não faz milagre”, ele podia ter ajudado. A associação de moradores não colabora. Ela tem seu valor, mas seria interessante se ela participasse mais diretamente. No terceiro eles até participaram, mas já estavam fazendo “massa de manobra”, dizendo que o evento era deles, mas não, é nosso.

E todo o policiamento que tem no evento, vocês pediram ou é um condição da própria prefeitura?
Tiri -
A gente faz questão que tenha para dar segurança para o púbico, por que a gente sabe que os “vida-loka” tem suas divergência aqui dentro , mas graças a Deus todo mundo respeita e todo mundo consegue curtir.

E foi preciso pedir permissão dentro da COHAB?
Tiri –
Na realidade a gente convive com isso, freqüentemente a gente se fala, são pessoas que jogam taco conosco, bolita, cresceu junto, então todo mundo se conhece. Só que cada um segue a trilha que acha melhor pra si, então a gente só conversa, e agente tem um respaldo grande da rapaziada por fazer uma coisa de verdade, de graça, nossa intenção ali não é ganhar é proporcionar lazer, cultura.

E para a edição anterior (2006), quais foram os principais crescimentos? E que ainda faltou?
Tiri –
Em primeiro lugar o que faltou: a gente entrou em contato com a secretaria e eles não foram corajosos o suficiente para dizer pra nós que não poderiam dar os outdoor’s, eles prometeram para nós 20 outdoor e 60 bunner’s e não nos deram, eles deixaram para última hora e foi nosso único problema. Nesta última edição o que mais me agradou foi o cenário. A gente arrumou um arquiteto “nervoso” o meu coroa (risos), e ele “enjambrou” umas pernas de prateleira, meteu uns parafusos e quando viu o bagulho tava de pé! Aí os guris do Spray nervoso pintaram. Aí entra o “Colorindo a COAHB”, que é um projeto que foi anexado ao evento a partir da terceira edição. Na terceira e na quarta edição a gente conseguiu pintar um quilômetro. Esse projeto vem do esforço dos próprios grafiteiros. O Anão do Spray Nervoso direciona toda essa parte, que começa duas semana antes do evento e termina no dia.

E como tu sente o resultado na própria comunidade? Quando tudo acaba, e começa a semana, como volta pra ti o resultado?
Tiri -
Eu acho que é o pagamento que a gente tem, o pessoal curte, agradece. A gente faz de coração, todo mundo ali mete a mão na massa, todo mundo cola cartaz, todo mundo queima as mãos, todo mundo faz acontecer. É um time que agente formou.

O evento deve ficar nas rodas de conversa de vocês durante muito tempo depois que acaba então pelo saldo dos últimos: quais são as tuas intenções para o próximo?
Tiri –
Bom, hoje é a primeira vez que a gente se encontra, mas para o ano que vem (2008) a gente tem intenção de lançar o nosso cd e de no começo do ano lançar o DVD duplo, inserido os 2 elementos com show de até 24 bandas de rap, tem extra , com documentário com algumas pessoas e com imagens desde o começo para gente mostrar o que foi e o que é hoje o evento.

2007 foi a primeira vez que o evento teve convidados de fora, Por quê?
Tiri –
Trazer gente de fora eu acho que faz parte de um amadurecimento de uma equipe de produção, primeiro a gente tem que concretizar uma coisa então a gente pensa o melhor para aquilo.

Desde o início da tua intenção até agora, com tu te sente fazendo este evento, que é tão grande, dar certo?
Tiri –
Dever cumprido...

Quem esteve no evento deve concordar que bom mesmo é aproveitar a oportunidade de sentir de perto a mais verdadeira raiz do rap. É poder ver a COHAB cheia, o palco cheio... Sentir tudo de perto junto com os grupos, com os grafiteiros, as crianças, as tiazinhas, as mães, a gurizada, por que todos de alguma forma fazem parte disso. É só conferir as fotos logo à cima, infelizmente não pude ficar até o final, mas pude pegar ótimos momentos!

Quem aproveitou, aproveitou e quem não... Perdeu!! ... Por que esta é uma oportunidade única no ano, por que depois, rap na capital gaúcha só na pista de dança onde prevalece o ritmo... Por que a poesia está no asfalto... Na periferia... Na COHAB.

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